sábado, 23 de outubro de 2010
Fragmentos de uma História Qualquer
"(...) É um laço que desenha espirais entre dois seres, como se os envolvesse fragilmente em um lençol onde não há outra saída senão se abraçarem – um abraço tão quebradiço que a mais simples brisa poderia desfazê-lo. O laço é o sutil abraço, e somente o abraço torna possível a existência dos dois seres."
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Retalhos de histórias palpáveis
"Parados de forma desajustadas, dois indivíduos tomam café em mesas distintas de uma praça de alimentação, sem perceberem um ao outro. Ao redor, o mundo se movimenta rapidamente e as cores confundem a mente fazendo parecer um imenso caleidoscópio com movimentos ondulatórios. Subitamente, ele parece desacelerar: é o momento em que os dois indivíduos notam a presença discreta um do outro, em lugares não muito próximos, mas distantes o suficiente para não conseguirem se tocar.
Aprisionadas aos olhos de cada um residem histórias secretas. Agarram-se desesperadamente nas lágrimas invisíveis e às vezes desfalecem lamentavelmente em sorrisos imaginários. Olhos que se detém um momento sobre o do outro porque essas histórias indizíveis os fascinam, cativam-lhes de um jeito misterioso.
E então se surpreende pensando nessas histórias nunca contadas, imaginando palcos e guerras, protagonistas e antagonistas, criando um mundo novo, fugindo do próprio. Quando percebe, está com um pedaço desbotado de uma vida que não é sua, mas de alguma forma torna-se tão sua como se estivessem segurando a mesma linha do carretel que pertence à pipa que se perdeu no imenso céu. Então o mundo explode em palavras.
Como se tudo à volta se abrisse em um extraordinário dicionário: as palavras flutuam na mente e o coração de tinta preta é derramado em pergaminho velho. As palavras estão no gesto singelo, na cor pulsante, no som gritante, no perfume doce, no silêncio errante. Assumem formato, alinhando-se até virarem um complexo de histórias que conectam uma pessoa à outra; um divertido quebra-cabeça. Descobre-se um semideus brincando com vidas feitas de um abraço de palavras.
Do lado de fora, o clarão da lua desliza gentilmente pelo seu rosto, fazendo-o especular sobre outros universos. Mais tarde, quando encosta suavemente a cabeça no travesseiro, essas histórias tão fragilmente presas aos cílios, se estilhaçam em outras tantas histórias como um copo de vidro atirado com violência para o outro extremo do aposento. Os sonhos são povoados de personagens que de certa forma são você, de certa forma são aquele desconhecido com quem você trocou um olhar e rapidamente desviou os olhos com medo de que acabasse se perdendo nesse abismo. O sentimento de estranha identificação corrói sua alma e te assusta."
terça-feira, 8 de junho de 2010
O som dos sentimentos cativos
"O garoto brincava distraidamente com os botões de sua blusa enquanto a menina esperava, inquieta, algum sinal de que poderia começar a falar. A chuva deslizava pelos telhados da casa e o garoto tinha a impressão de que estavam em uma espécie de bolha onde ninguém poderia penetrar; há um tempo tinha a impressão de que ninguém era capaz de ouvi-los.
- Somos egoístas e egocêntricos. – começou a falar pausadamente a menina, já que o outro permanecia em sua brincadeira hipnótica – Revezamo-nos em presa e predador. Somos adversários. Apesar disso irá me ouvir?
- Em uma relação, somos adversários irremediáveis. Se não me falar, a quem irá? – rebateu o garoto.
A menina levantou os olhos para o garoto e fitou-o de um jeito desesperado.
- Viver é-me extremamente cansativo. – disse de um fôlego só.
Do lado de fora da casa, a chuva caía de forma ritmada dando origem a uma canção improvisada. A noite espreitava com sua impersonalidade avassaladora e lua e estrelas eram ocultas por uma camada de nuvem espessa.
Aproximando-se cautelosamente da menina para não ferir seu orgulho ou ameaçar sua individualidade, o garoto a abraçou timidamente com sua insegurança de quem não sabe se relacionar mas precisa.
E permaneceram assim durante um longo tempo, onde tudo o que ouviam era a cadência dos soluços da menina."
- Somos egoístas e egocêntricos. – começou a falar pausadamente a menina, já que o outro permanecia em sua brincadeira hipnótica – Revezamo-nos em presa e predador. Somos adversários. Apesar disso irá me ouvir?
- Em uma relação, somos adversários irremediáveis. Se não me falar, a quem irá? – rebateu o garoto.
A menina levantou os olhos para o garoto e fitou-o de um jeito desesperado.
- Viver é-me extremamente cansativo. – disse de um fôlego só.
Do lado de fora da casa, a chuva caía de forma ritmada dando origem a uma canção improvisada. A noite espreitava com sua impersonalidade avassaladora e lua e estrelas eram ocultas por uma camada de nuvem espessa.
Aproximando-se cautelosamente da menina para não ferir seu orgulho ou ameaçar sua individualidade, o garoto a abraçou timidamente com sua insegurança de quem não sabe se relacionar mas precisa.
E permaneceram assim durante um longo tempo, onde tudo o que ouviam era a cadência dos soluços da menina."
"- Porque eu sou covarde. O mundo me amendronta e prefiro deixar nas entrelinhaso o que não suportaria falar em voz alta, entende?"
sábado, 5 de junho de 2010
I Carta Para Além do Pacífico
Teresópolis, 16 de abril de 2009.
Querido L. A.,
Ando me especializando em decorar seus olhares e sorrisos. Com pequenos gestos, feitos de longe e singelos, devaneio sobre sua presença. E na pausa do ônibus, entre a morte súbita do motor, um “bom dia” e o ruído da roleta, ouvindo restos de conversas em minha cabeça, penso ouvir seu sussurro. Imagino sua voz, ondulando entre os assentos e indo de encontro a mim.
Escrevo-lhe, porém, para dizer sobre meu novo amigo. Chegou até mim através de moinhos do destino, estilhaçado e tímido. Estava ele em uma prateleira, entre tantos outros, sorrindo como um enigma. Enquanto suas palavras desfilavam diante de meus olhos, desafiando-me a decifrá-las, meu coração se preenchia de tinta preta. Aprecio também o efeito de suas páginas quando as folheio lentamente - é o cheiro que transborda do seu mundo. O desconhecido e o que não existe sempre me comovem, cativam-me de forma intrínseca. Você entende dessas coisas, não é?
Continuo a te esperar.
Querido L. A.,
Ando me especializando em decorar seus olhares e sorrisos. Com pequenos gestos, feitos de longe e singelos, devaneio sobre sua presença. E na pausa do ônibus, entre a morte súbita do motor, um “bom dia” e o ruído da roleta, ouvindo restos de conversas em minha cabeça, penso ouvir seu sussurro. Imagino sua voz, ondulando entre os assentos e indo de encontro a mim.
Escrevo-lhe, porém, para dizer sobre meu novo amigo. Chegou até mim através de moinhos do destino, estilhaçado e tímido. Estava ele em uma prateleira, entre tantos outros, sorrindo como um enigma. Enquanto suas palavras desfilavam diante de meus olhos, desafiando-me a decifrá-las, meu coração se preenchia de tinta preta. Aprecio também o efeito de suas páginas quando as folheio lentamente - é o cheiro que transborda do seu mundo. O desconhecido e o que não existe sempre me comovem, cativam-me de forma intrínseca. Você entende dessas coisas, não é?
Continuo a te esperar.
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