terça-feira, 8 de junho de 2010

O som dos sentimentos cativos

"O garoto brincava distraidamente com os botões de sua blusa enquanto a menina esperava, inquieta, algum sinal de que poderia começar a falar. A chuva deslizava pelos telhados da casa e o garoto tinha a impressão de que estavam em uma espécie de bolha onde ninguém poderia penetrar; há um tempo tinha a impressão de que ninguém era capaz de ouvi-los.

- Somos egoístas e egocêntricos. – começou a falar pausadamente a menina, já que o outro permanecia em sua brincadeira hipnótica – Revezamo-nos em presa e predador. Somos adversários. Apesar disso irá me ouvir?

- Em uma relação, somos adversários irremediáveis. Se não me falar, a quem irá? – rebateu o garoto.

A menina levantou os olhos para o garoto e fitou-o de um jeito desesperado.

- Viver é-me extremamente cansativo. – disse de um fôlego só.

Do lado de fora da casa, a chuva caía de forma ritmada dando origem a uma canção improvisada. A noite espreitava com sua impersonalidade avassaladora e lua e estrelas eram ocultas por uma camada de nuvem espessa.

Aproximando-se cautelosamente da menina para não ferir seu orgulho ou ameaçar sua individualidade, o garoto a abraçou timidamente com sua insegurança de quem não sabe se relacionar mas precisa.

E permaneceram assim durante um longo tempo, onde tudo o que ouviam era a cadência dos soluços da menina."

"- Porque eu sou covarde. O mundo me amendronta e prefiro deixar nas entrelinhaso o que não suportaria falar em voz alta, entende?"

sábado, 5 de junho de 2010

I Carta Para Além do Pacífico

Teresópolis, 16 de abril de 2009.

Querido L. A.,
Ando me especializando em decorar seus olhares e sorrisos. Com pequenos gestos, feitos de longe e singelos, devaneio sobre sua presença. E na pausa do ônibus, entre a morte súbita do motor, um “bom dia” e o ruído da roleta, ouvindo restos de conversas em minha cabeça, penso ouvir seu sussurro. Imagino sua voz, ondulando entre os assentos e indo de encontro a mim.
Escrevo-lhe, porém, para dizer sobre meu novo amigo. Chegou até mim através de moinhos do destino, estilhaçado e tímido. Estava ele em uma prateleira, entre tantos outros, sorrindo como um enigma. Enquanto suas palavras desfilavam diante de meus olhos, desafiando-me a decifrá-las, meu coração se preenchia de tinta preta. Aprecio também o efeito de suas páginas quando as folheio lentamente - é o cheiro que transborda do seu mundo. O desconhecido e o que não existe sempre me comovem, cativam-me de forma intrínseca. Você entende dessas coisas, não é?
Continuo a te esperar.