"Parados de forma desajustadas, dois indivíduos tomam café em mesas distintas de uma praça de alimentação, sem perceberem um ao outro. Ao redor, o mundo se movimenta rapidamente e as cores confundem a mente fazendo parecer um imenso caleidoscópio com movimentos ondulatórios. Subitamente, ele parece desacelerar: é o momento em que os dois indivíduos notam a presença discreta um do outro, em lugares não muito próximos, mas distantes o suficiente para não conseguirem se tocar.
Aprisionadas aos olhos de cada um residem histórias secretas. Agarram-se desesperadamente nas lágrimas invisíveis e às vezes desfalecem lamentavelmente em sorrisos imaginários. Olhos que se detém um momento sobre o do outro porque essas histórias indizíveis os fascinam, cativam-lhes de um jeito misterioso.
E então se surpreende pensando nessas histórias nunca contadas, imaginando palcos e guerras, protagonistas e antagonistas, criando um mundo novo, fugindo do próprio. Quando percebe, está com um pedaço desbotado de uma vida que não é sua, mas de alguma forma torna-se tão sua como se estivessem segurando a mesma linha do carretel que pertence à pipa que se perdeu no imenso céu. Então o mundo explode em palavras.
Como se tudo à volta se abrisse em um extraordinário dicionário: as palavras flutuam na mente e o coração de tinta preta é derramado em pergaminho velho. As palavras estão no gesto singelo, na cor pulsante, no som gritante, no perfume doce, no silêncio errante. Assumem formato, alinhando-se até virarem um complexo de histórias que conectam uma pessoa à outra; um divertido quebra-cabeça. Descobre-se um semideus brincando com vidas feitas de um abraço de palavras.
Do lado de fora, o clarão da lua desliza gentilmente pelo seu rosto, fazendo-o especular sobre outros universos. Mais tarde, quando encosta suavemente a cabeça no travesseiro, essas histórias tão fragilmente presas aos cílios, se estilhaçam em outras tantas histórias como um copo de vidro atirado com violência para o outro extremo do aposento. Os sonhos são povoados de personagens que de certa forma são você, de certa forma são aquele desconhecido com quem você trocou um olhar e rapidamente desviou os olhos com medo de que acabasse se perdendo nesse abismo. O sentimento de estranha identificação corrói sua alma e te assusta."
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